Os aparelhos ortodônticos utilizados na infância e adolescência têm como principal objetivo a correção e o alinhamento dental. Entretanto, é comum que, algum tempo após a conclusão do tratamento, os dentes possam voltar a se deslocar, causando frustração e a impressão de que o esforço foi em vão. No entanto, essa percepção não é totalmente correta.
É importante destacar que ocorre ao longo da vida uma remodelação natural dos dentes. Mudanças durante o crescimento adolescente, o envelhecimento, hábitos como o bruxismo, e variações no tecido ósseo podem alterar a posição dos dentes. O cirurgião-dentista e ortodontista Alexander Cassandri Nishida, professor da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, explica que um jovem que remove o aparelho aos 16 anos ainda pode observar pequenas movimentações até o final do crescimento e alterações na vida adulta.
Isso se deve ao fato de que os dentes não estão “colados” ao osso. “As raízes estão inseridas em uma cavidade denominada alvéolo e são sustentadas por fibras elásticas que funcionam como amortecedores. Isso permite que eles se movam”, detalha Nishida. “Quando o aparelho ortodôntico exerce pressão, ocorre um processo chamado remodelação óssea: o osso é reabsorvido de um lado e renovado do outro.”
Nesse contexto, a contenção desempenha um papel essencial, pois ajuda a manter os dentes na posição correta, evitando mais movimentações. “A contenção é uma fase imprescindível para conservar os resultados do tratamento”, afirma o especialista.
Qual é a duração do uso da contenção?
De acordo com pesquisas, o tempo mínimo de uso da contenção deve ser, no mínimo, o dobro da duração do tratamento ortodôntico. Na prática, a orientação é mais clara: a contenção deve ser utilizada enquanto o paciente desejar manter os dentes alinhados. “Se o objetivo for preservar o sorriso ao longo da vida, este será também o período de uso”, ressalta o ortodontista.
Os dentes inferiores são normalmente os mais suscetíveis à instabilidade, devido às raízes finas e à pressão maior provocada pelos hábitos alimentares. Por isso, muitas vezes recomenda-se a contenção fixa na arcada inferior, com um fio colado atrás dos dentes, de forma indefinida. Apesar da eficácia, é necessário redobrar os cuidados na higiene. “Há discussões com outras áreas, como a periodontia, uma vez que esse tipo de contenção pode dificultar a higiene e aumentar a inflamação gengival”, pondera Nishida.
Na arcada superior, que costuma ser mais estável, há a possibilidade de usar contenções removíveis, como placas acrílicas ou modelos transparentes semelhantes a alinhadores, inicialmente em uso contínuo e depois apenas durante o sono. “A escolha do tipo de contenção depende muito do perfil do paciente. Aqueles que seguem corretamente as instruções tendem a se adaptar bem à contenção removível. Já os que têm dificuldade em manter a rotina de cuidados podem ser melhor atendidos com a contenção fixa”, diz o especialista.
Evitar a recidiva é uma tarefa difícil. Hábitos aparentemente inofensivos, como roer unhas, morder objetos e o bruxismo, são fatores de risco. Até mesmo a falta de higiene bucal pode contribuir, uma vez que inflamações gengivais comprometem as estruturas de suporte dos dentes.
O acompanhamento regular da contenção a cada seis meses ou, ao menos, uma vez por ano é fundamental para identificar desgastes ou descolamentos e realizar a necessária troca. Em algumas situações, escaneamentos digitais também podem ser utilizados para monitorar alterações na posição dental ao longo do tempo.
Quando é necessário o uso de aparelho
Fatores comuns na infância, como o uso prolongado de chupetas e mamadeiras, respiração bucal e chupar o dedo, podem aumentar a necessidade de tratamento ortodôntico.
Em certas situações, podem ser recomendados aparelhos interceptativos, que visam não apenas o alinhamento dos dentes, mas também estimular o crescimento ósseo quando o dentista percebe que a arcada permanente poderá ser insuficiente ou quando há alterações na mordida ou na posição da língua. Esses tratamentos são recomendados entre os 5 e 7 anos e podem ser necessários mesmo na ausência de hábitos prejudiciais.
As intervenções corretivas ocorrem, geralmente, quando a dentição permanente está quase completa, entre 11 e 13 anos, e incluem aparelhos fixos ou alinhadores invisíveis para otimizar a posição dos dentes e melhorar aspectos como a função mastigatória, cuidados com a higiene e a respiração.

