A pesquisa envolvendo a polilaminina, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em colaboração com a farmacêutica Cristália, ganhou notoriedade recentemente. No entanto, ainda são necessárias respostas a várias perguntas antes de se confirmar que a substância pode realmente ajudar pacientes com lesão medular a recuperar movimentos.
Os estudos, liderados pela bióloga Tatiana Sampaio Coelho, foram iniciados há mais de 25 anos, com a maior parte desse tempo dedicada à fase pré-clínica, onde são realizados testes laboratoriais fundamentais.
A equipe não se limitou a analisar as moléculas da polilaminina, mas também investiu na verificação dos efeitos da substância em culturas de células e em modelos animais antes de avançar para testes em seres humanos.
Entendendo a polilaminina
A descoberta da polilaminina ocorreu acidentalmente quando a professora Tatiana Sampaio tentava separar as componentes da laminina, uma proteína vital no corpo humano.
Durante o experimento com um solvente, as moléculas de laminina não se separaram, mas formaram uma rede, originando a polilaminina. Embora essa ligação ocorra naturalmente no corpo, ela nunca havia sido replicada em laboratório até então.
Tatiana começou a explorar os possíveis usos dessa rede de lamininas e identificou seu papel crucial na movimentação dos axônios, prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão de informações elétricas e químicas no sistema nervoso.
Em casos de fratura na medula, os axônios podem se romper, impedindo a comunicação entre o cérebro e o corpo a partir do ponto da lesão, resultando em paralisia.
Como as células do sistema nervoso geralmente não se regeneram, a proposta é verificar se a polilaminina pode servir como uma nova base, possibilitando que os axônios dos pacientes voltem a se desenvolver e se reconectarem.
Estudo inicial
Após resultados positivos em experimentos com ratos, a equipe conduziu um estudo piloto entre 2016 e 2021, testando a substância em oito pacientes com lesões severas na medula, resultantes de quedas, acidentes automobilísticos ou feridas por armas de fogo.
Sete dos participantes também se submeteram a cirurgia de descompressão da coluna, um procedimento padrão para lesões medulares, realizado até três dias após o acidente.
Infelizmente, duas pessoas faleceram enquanto ainda estavam hospitalizadas devido à gravidade das lesões, e uma terceira faleceu posteriormente em decorrência de complicações.
Entretanto, cinco dos pacientes que receberam a polilaminina e se submeteram à cirurgia apresentaram melhorias motoras, conseguindo movimentar partes do corpo previamente paralisadas, embora isso não tenha garantido a capacidade de andar novamente.
A evolução dos pacientes foi medida pela escala AIS, que varia de A a E, sendo A o nível mais crítico de comprometimento e E o funcionamento normal. A avaliação considerou a resposta a estímulos aplicados em áreas específicas do corpo.
Quatro pacientes avançaram da classificação A para a C, evidenciando alguma sensibilidade e movimento, ainda que de forma parcial. Um deles, Bruno Drummond de Freitas, progrediu para a D, recuperando quase totalmente as funções motoras e sensibilidade.
Bruno, que se tornou tetraplégico em 2018 após uma fratura cervical, declarou em entrevista na TV Brasil que começou a movimentar o dedão do pé algumas semanas após a cirurgia e a aplicação de polilaminina, o que representou um marco em sua recuperação.
Apesar dos relatos dos pacientes, a eficácia da polilaminina ainda precisa ser validada cientificamente. Um artigo pré-print do grupo de pesquisa apontou que até 15% dos casos de lesão completa podem levar a algum grau de recuperação espontânea.
Além disso, o diagnóstico de lesão total e a classificação na escala AIS logo após a fratura podem ser afetados por inflamações e inchaços, ocasionalmente resultando na classificação excessivamente severa de pacientes que podem ter lesões menos graves.
Não obstante, os resultados apresentados pela equipe de pesquisa em setembro chamaram a atenção. Se a polilaminina demonstrar eficácia, poderá oferecer uma solução inovadora para milhões de pessoas afetadas por esse tipo de lesão, impactando significativamente suas vidas. No entanto, ainda há um longo caminho pela frente.
Fases dos testes clínicos
O professor Eduardo Zimmer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, esclarece que os ensaios clínicos normalmente são organizados em três fases, cada uma com um propósito específico.
“A fase 1 geralmente envolve um número reduzido de pacientes saudáveis para garantir a segurança do tratamento e a tolerância humana. Nesse estágio, estudamos também a farmacocinética, que analisa o comportamento da droga no organismo”, explica.
Atualmente, o estudo da polilaminina se encontra nesta fase, com testes programados para iniciar neste mês e concluir até o final do ano.
Contudo, haverá uma particularidade: a polilaminina será administrada por injeção diretamente na medula, e não em pacientes saudáveis, mas em indivíduos com lesão medular aguda.
“Acompanharemos possíveis eventos adversos, realizaremos avaliações neurológicas para verificar quaisquer deteriorações e faremos exames de sangue para averiguar a toxicidade hepática ou renal. Esses dados serão comparados com a história natural dos pacientes, que são casos graves, e com outros estudos”, acrescenta Tatiana.
Com a aprovação da Anvisa, a substância será testada em cinco voluntários com idades entre 18 e 72 anos, que tenham lesões agudas completas da medula espinhal torácica entre as vértebras T2 e T10, com indicação cirúrgica realizada em menos de 72 horas após o trauma. O procedimento será realizado no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
Adicionalmente, essa pesquisa terá uma especificidade, conforme a pesquisadora. “O fato de se tratar de pacientes com lesão medular implica que já se possa avaliar indicativos de eficácia desde a fase 1”, buscando observar se haverá melhora desde o início do estudo, diferentemente da metodologia convencional.
Eduardo Zimmer, também chefe de Pesquisa do Hospital Moinhos de Vento e apoiado por instituições como o Instituto Serrapilheira, lembra que a eficácia de um medicamento em humanos é normalmente mensurada a partir da fase 2, quando há um aumento no número de voluntários e avaliações de diferentes dosagens.
Tatiana Sampaio revelou que o estudo da polilaminina avaliará duas dosagens diferentes, caso avance para a fase 2. Os detalhes e planos para uma eventual fase 3, que é crucial para a confirmação de eficácia, ainda estão em fase de definição. A expectativa é que todas as fases sejam finalizadas em cerca de dois anos e meio.
Desafios no processo de teste
Eduardo Zimmer menciona que, normalmente, na fase 3, aumenta substancialmente o número de voluntários e os testes são realizados em múltiplos centros.
Os participantes são distribuídos aleatoriamente em dois grupos, sendo apenas um deles submetido à nova substância, enquanto o outro serve como controle.
Idealmente, nem os pacientes nem os pesquisadores devem saber inicialmente a qual grupo pertencem. O intuito é assegurar que os resultados refletirão com precisão a eficácia do medicamento.
“O grupo controle permitirá comparar a eficácia do novo tratamento com outras terapias disponíveis. Não é apropriado suspender o tratamento do paciente; deve-se sempre buscar a melhor assistência, para que possamos verificar se a nova droga oferece resultados superiores ao tratamento já existente”, aponta.
No entanto, os ensaios clínicos para a polilaminina podem apresentar desafios próprios. Jorge Venâncio, ex-presidente da Conep, lembra que participantes dos grupos de controle geralmente recebem acesso prioritário a tecnologias comprovadamente eficazes, como forma de compensação.
“Aqui, a dificuldade é que o tratamento precisa ser iniciado rapidamente após o acidente, mas os resultados podem levar tempo para serem evidentes. Portanto, ao finalizar o estudo, pode ser complicado oferecer o tratamento aos participantes que receberam o comparador”, acrescenta.
Ainda que os ensaios geralmente sigam um protocolo ideal, ajustes podem ser necessários e justificados, conforme Venâncio. Isso é comum, por exemplo, em tratamentos para doenças raras, onde o número de possíveis voluntários é limitado. Porém, ele enfatiza que é fundamental cumprir todas as etapas do processo de pesquisa.
“Não podemos administrar uma substância sem a certeza de que ela não causará danos a um grande número de participantes. Por isso testamos primeiro em um grupo pequeno para avaliar os riscos antes de avançar. A fase dois já busca estabelecer a dosagem adequada e na fase três validamos a eficácia final. Sem um grupo controle, corremos o risco de obter uma conclusão enganosa”, destaca.
Monitoramento dos ensaios clínicos
Tatiana Sampaio, da UFRJ, ressalta que, independentemente dos resultados obtidos, a decisão sobre as próximas etapas da pesquisa com a polilaminina cabe à Anvisa e a um comitê de ética reconhecido, órgãos responsáveis pela autorização e supervisão de ensaios clínicos no Brasil.
Meiruze Freitas, coordenadora da Inaesp, agrega que, mesmo após a aprovação, as pesquisas permanecem sob monitoramento. O comitê de ética garante que as atividades não estejam prejudicando os participantes, e a Anvisa fiscaliza se as normas de boas práticas estão sendo seguidas.
“A polilaminina apresenta uma esperança significativa, dado que lesões medulares podem levar a diversas complicações, incluindo a morte. Entretanto, é essencial manter o rigor científico. As fases de pesquisa existemt não como mera burocracia, mas para garantir dados confiáveis, que possam ser avaliados por pares e que comprovem a verdadeira eficácia da tecnologia. Isso protege a população de produtos não confiáveis”, afirma.
Por outro lado, Meiruze acredita que os órgãos reguladores enfrentarão desafios crescentes diante das especificidades de pesquisas que buscam soluções inovadoras.
A coordenadora ressalta a necessidade de que esses órgãos sejam adequadamente estruturados e dotados de expertise técnica para lidar com inovações de forma responsável, acompanhando aspectos como qualidade, eficácia e segurança. Ao mesmo tempo, os pesquisadores devem ter suporte para conduzir seus estudos de acordo com as exigências necessárias.
“Teoricamente, mesmo que os resultados sejam preliminares nas fases 1 e 2, já é possível indicar a eficácia. Para tratamentos como a polilaminina, que não têm alternativas terapêuticas além da cirurgia, seria viável acelerar seu desenvolvimento e, possivelmente, permitir um registro no Brasil ao final da fase 2, enquanto se conclui a fase 3”, conclui Meiruze.
Atualmente, a principal regulamentação sobre o tema é a Lei 14.874, sancionada em 2024, que trouxe mudanças destinadas a acelerar o desenvolvimento de novas tecnologias, como a redução dos prazos para análise de novos estudos. Os comitês de ética agora têm um prazo de 30 dias para responder, enquanto a Anvisa deve fazê-lo em 90 dias.
Importância da ciência
Tatiana Sampaio, criadora da polilaminina, argumenta que a redução de obstáculos para pesquisas depende também de uma mudança cultural.
“É fundamental entender que investir em ciência pública é crucial para um país em desenvolvimento. Precisamos de tecnologias próprias e não podemos depender mais de soluções externas.”
“Sou determinada, mas, independentemente das minhas qualidades, o progresso só foi possível por conta da particularidade da minha pesquisa. Estava investigando uma condição sem tratamento disponível, que possui grande apelo emocional. Além disso, o tema gera alto interesse científico, facilitando meu trabalho. Somando todos esses fatores, conseguimos avançar. Em outras circunstancias, isso não teria sido tão simples”, conclui Tatiana.

